• Carolina Macedo Galvani

17% das exportações de carne da Amazônia e Cerrado para a UE vêm de desmatamento ilegal


Um estudo publicado na revista acadêmica Science constatou que 20% da soja e, pelo menos, 17% da carne bovina exportadas da Floresta Amazônica e Cerrado brasileiros (a mais biodiversa, rica em carbono e antiga savana do mundo) para a União Europeia advêm de áreas desmatadas ilegalmente. Essa conclusão reforça informações prévias que apontam a pecuária e a plantação de soja como os maiores culpados pelo desmatamento tropical.

Para chegar a essa conclusão, 815 mil propriedades rurais do país foram avaliadas e comparadas com mapas de uso de terra e desmatamento. Pesquisadores também obtiveram dados da TRASE e de documentos da GTA (licenças de transporte de gado), emitidos quando animais são negociados entre propriedades e para abatedouros. Além disso, na cadeia de suprimentos da JBS, maior empresa de processamento de carne do mundo, foi encontrado gado que havia pastado ilegalmente na Amazônia, conforme um relatório publicado pela Anistia Internacional em julho. Isso também pode significar que, além do impacto ambiental, a “JBS contribui para abusos contra os direitos humanos das populações indígenas”. A companhia sabia dessa situação desde 2009, mas não a solucionou e, falsamente, alegava que sua carne era livre de desmatamento.

Soja, carne bovina e desmatamento da Amazônia

Já é bem sabido que a produção de soja é um dos principais fatores que contribuem para o desmatamento, mas nem todos sabem que a maior parte da soja é produzida para alimentar animais, não pessoas. Uma pessoa que come carne é responsável por consumir muito mais soja que uma pessoa vegana comendo tofu. Por exemplo,: é estimado que o europeu médio consome, aproximadamente, 61 kg de soja por ano, principalmente através de produtos animais como frango, carne de porco, salmão, queijo, leite e ovos.

Dado que o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, o maior produtor de soja (primariamente utilizada para alimentar gado de corte e gado leiteiro), e que está experienciando suas maiores taxas de desmatamento em décadas (1,36 milhão de hectares apenas em 2019), a pressão internacional por soluções reais e decisões políticas está aumentando. Mas, enquanto o governo brasileiro diz que não pode rastrear completamente sua cadeia de suprimentos, o artigo da Science “The rotten apples of Brazil's agribusiness” (A maçã podre do agronegócio brasileiro) relatou que, na verdade, pode e deve.:

“Nós usamos mapas disponibilizados livremente e dados para revelar fazendeiros e pecuaristas específicos que estão derrubando florestas para produzir soja e carne bovina que, em última análise, se destinam à Europa. Agora, o Brasil tem a informação de que precisa para tomar uma ação rápida e decisiva contra estes transgressores e garantir que suas exportações sejam livres de desmatamento. Chamar a situação de desesperadora não é mais uma desculpa”, explica Raoni Rajão, professor na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Direitos Humanos: o outro lado da moeda

No Brasil, a região amazônica tem visto o maior crescimento da indústria pecuária brasileira. “Desde 1988 o número de bovinos quase quadruplicou, atingindo 86 milhões em 2018, o que representa 40% do total nacional”, constatou a Anistia Internacional. Mas, desmatamento não é apenas um problema para animais, recursos naturais e a floresta: a ONG também alerta sobre violações dos direitos humanos, violência e ameaças contra populações indígenas e residentes tradicionais das reservas, fazendo com que restassem apenas três pessoas de aproximadamente 60 famílias que viviam na Reserva do Rio Jacy-Paraná. Terras indígenas são protegidas por legislação internacional de Direitos Humanos e a pecuária comercial é proibida nestes locais.

Reduzir o consumo de produtos animais é crucial para proteger o meio ambiente, comunidades indígenas e para ajudar a prevenir futuras pandemias. Clique aqui para aprender como você pode colaborar.