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Cidadão Taboanense, Compromisso Zero: enquanto Zaffari recebia homenagem, porcas continuam presas em gaiolas

1 de out.
4 min de leitura

Atualizado: 2 de out.

Na mesma noite em que Claudio Luiz Zaffari recebeu o Título de Cidadão Taboanense, a Sinergia Animal entregou um troféu simbólico para lembrar aquilo que ainda falta: um compromisso público do Grupo Zaffari com o fim das gaiolas de gestação



Há algo de bastante simbólico em uma cerimônia de homenagem.


Quando uma cidade entrega seu título de Cidadão Taboanense, está reconhecendo publicamente uma trajetória, uma contribuição e um legado.


No dia 30 de setembro, Claudio Luiz Zaffari esteve entre os homenageados pela Câmara Municipal de Taboão da Serra, em uma sessão solene que concedeu o título a dezenas de pessoas.


A própria Câmara define a honraria como a maior concedida pelo município.


Do lado de fora, porém, havia outra cerimônia: tapete vermelho, roupas de gala e um troféu em formato de porco.


A premiação? Honra ao Mérito — Categoria: Compromisso Zero.


Era uma provocação, sim. Mas não era uma piada. Era uma cobrança pública.



Afinal, compromisso com o quê?


A Sinergia Animal cobra do Grupo Zaffari algo bastante específico: que a empresa publique um compromisso para eliminar as gaiolas de gestação para porcas em sua cadeia de fornecimento, estabelecendo uma política de transição e mecanismos para acompanhar publicamente o avanço dessa mudança.


Não estamos falando de uma exigência inventada ontem ou de uma prática inexistente no mercado. E definitivamente não estamos falando de pedir ao Zaffari que seja pioneiro em alguma revolução impossível para o varejo.


Outras grandes redes já assumiram compromissos públicos nessa direção.


O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, estabelece como meta chegar a 2028 com 100% da carne suína comercializada em suas lojas proveniente de fornecedores que contemplem critérios de bem-estar animal, incluindo a transição para sistemas de gestação coletiva.


O DIA assumiu o compromisso de, até dezembro de 2028, comercializar no Brasil produtos com carne suína provenientes exclusivamente de sistemas em que as porcas estejam livres de celas de gestação e alojadas coletivamente.


Carrefour, St. Marche, Quitanda e Festval também tornaram públicos seus compromissos de comercializar carne suína proveniente exclusivamente de sistemas de gestação coletiva.


E esses são apenas alguns exemplos.


A pergunta, portanto, não é se o varejo pode fazer isso. É por que o Grupo Zaffari ainda não assumiu publicamente que fará.


Mais de 70 tentativas depois, ainda estamos esperando


A campanha contra as gaiolas de gestação do Grupo Zaffari não começou na porta da Câmara. Foram mais de 70 tentativas de contato desde 2024 para discutir a adoção de um compromisso público de bem-estar suíno.


Mas, até o momento, não houve nenhuma manifestação para avançar voluntariamente sobre o tema.


O que acontece dentro de uma gaiola de gestação?


Para entender por que essa cobrança importa, é preciso sair um pouco do vocabulário corporativo e olhar para o animal.


As chamadas gaiolas ou celas de gestação são estruturas metálicas individuais utilizadas para confinar porcas reprodutoras durante parte de seu ciclo produtivo.


O problema é simples de explicar: o espaço restringe severamente os movimentos do animal.


Uma porca confinada dessa maneira não consegue sequer se virar dentro da gaiola.

E estamos falando de animais que podem pesar centenas de quilos e que, em condições naturais, são altamente ativos, exploratórios e sociais.


A discussão sobre bem-estar, portanto, não é uma questão estética. É uma discussão sobre liberdade de movimento, comportamento natural e sofrimento evitável.


É justamente por isso que sistemas de gestação coletiva vêm sendo adotados por empresas do setor como alternativa às celas individuais.


O mercado já está se movimentando


Há outro dado que torna o silêncio ainda mais difícil de justificar.


O próprio mercado varejista brasileiro já possui uma série de compromissos públicos relacionados ao bem-estar de porcos.


A Sinergia Animal acompanha anualmente a transição para sistemas sem celas de gestação, que já entrou na agenda de diferentes empresas do varejo.


Ou seja: existe precedente.


E existe uma organização da sociedade civil há anos tentando conversar com o Grupo Zaffari sobre o assunto. O que continua faltando é o anúncio do compromisso.


“Compromisso Zero”


Foi por isso que a Sinergia Animal decidiu transformar a cobrança em uma cerimônia.


Se havia uma solenidade para reconhecer uma trajetória, haveria uma premiação simbólica para lembrar uma ausência e questionar um legado.


A provocação não era sobre a existência do título concedido pela Câmara. Era sobre o contraste.


De um lado, reconhecimento público. Do outro, uma cobrança que permanece sem resposta concreta.


Porque reputação também é feita de escolhas e uma empresa que vende alimentos de origem animal escolhe, todos os dias, quais práticas aceita em sua cadeia de fornecimento.


Um compromisso público não resolve automaticamente todos os problemas de uma cadeia produtiva, mas cria algo fundamental: responsabilidade verificável.


Uma política pública de bem-estar animal precisa dizer o que será feito, em que prazo, com quais critérios e como o progresso será acompanhado.


É isso que permite que consumidores, investidores, organizações da sociedade civil e a própria empresa saibam se uma promessa está sendo cumprida.


Sem meta, não há prazo. Sem prazo, não há cobrança.


E é justamente por isso que a Sinergia Animal não está pedindo apenas que o Zaffari “se preocupe” com o bem-estar animal. Estamos pedindo um compromisso público.


Que legado o Grupo Zaffari quer deixar?


A homenagem de Taboão da Serra colocou Claudio Zaffari sob os holofotes por sua trajetória empresarial.


A ação da Sinergia Animal aproveitou o mesmo momento para colocar outra pergunta sob os holofotes: qual é o legado que o Grupo Zaffari quer deixar para os animais que fazem parte de sua cadeia de fornecimento?


O troféu entregue na noite de 30 de setembro foi simbólico. A demanda, não.


Mais de 70 tentativas de contato depois, a questão continua bastante objetiva: Zaffari, quando virá o compromisso público pelo fim das gaiolas de gestação para porcas?


Enquanto a resposta não chega, o “Compromisso Zero” continua em exposição.


E talvez seja justamente esse o tipo de prêmio que nenhuma empresa queira manter na estante.


Sobre a ação


A mobilização ocorreu em 30 de setembro, em frente à Câmara Municipal de Taboão da Serra, durante a sessão solene de entrega do Título de Cidadão Taboanense.


Claudio Luiz Zaffari foi um dos nomes escolhidos pelo colegiado de vereadores para receber a honraria.


Os ativistas também entraram na Câmara durante a solenidade para distribuir materiais informativos e conversar com participantes sobre a campanha.




Fotos: Gunnar Vargas

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