• Aline Baroni

7 motivos por que ninguém quer trabalhar na indústria da carne

Pessoas que vêem cenas de crueldade animal em abatedouros normalmente criticam os trabalhadores por suas atitudes "terríveis". Isso é absolutamente inapropriado. Não apenas os animais só são mortos e explorados porque há demanda por carne, leite e ovos — e consumidores são responsáveis por isso —, como os trabalhadores também são vítimas desse sistema. Veja como.

1. O trabalho é penoso

Abate e processamento de carne são duas atividades que acontecem em linhas de produção. Primeiro, trabalhadores têm que colocar animais vivos em uma linha em movimento ou em um recinto específico para o abate. Os movimentos repetitivos e peso dos animais podem tornar esse processo cansativo.

Foto: We Animals

Quando animais estão mortos, eles são direcionados para a evisceração e limpeza, e depois para o empacotamento e transporte. Alguns desses processos são feitos por máquinas, outros por humanos. Os movimentos, cortes e desossa das carcaças são tarefas árduas: requerem rapidez, precisão e repetição, o que faz com que os trabalhadores tenham dores constantes.

Pessoas que cortam frango podem fazer até 90 movimentos por minuto no Brasil… Durante horas! Além disso, não é incomum que eles façam turnos que excedem muito o permitido por lei, muitas vezes também sem intervalo adequado entre as jornadas ou aos finais de semana.

Diversos trabalhadores em frigoríficos trabalham em áreas refrigeradas, onde, mesmo que usem uniforme, sentem frio constantemente.

De forma geral, os problemas incluem exposição das pessoas ao frio, ao ruído, posturas inadequadas, amputações, umidade, deslocamento de carga em excesso, exposição à amônia, vasos de pressão, e jornadas exaustivas, fazendo do trabalho em frigoríficos "a atividade industrial que mais gera adoecimentos no país", segundo o Ministério Público do Trabalho.

Todos esses problemas não são casos isolados e não acontecem apenas durante alguns minutos do dia desses trabalhadores: eles são o padrão da indústria, incluindo de algumas das maiores processadoras de carne do mundo, e as pessoas têm que suportar essas condições durante toda a jornada de trabalho. Leia mais nessa reportagem da Agência Pública.

2. Não são raros os casos de mutilações

Uma vez que as pessoas manuseando facas e máquinas cortantes têm que fazer movimentos rápidos porque pedaços de animais estão passando incessantemente pelas esteiras, não são raros os casos em que trabalhadores acabam feridos — desde cortes mais superficiais, até amputações e mortes.

3. É emocionalmente duro

Vamos ser honestos, a maior parte das pessoas no mundo não são perversas e gostam de ver animais serem mortos todos os dias. Ter que enfrentar essa realidade e colocar animais nessa posição é um fardo emocional pesado para a maior parte das pessoas que trabalha em abatedouros — não é de se espantar que a atividade esteja sendo relacionada a transtorno de estresse pós-traumático e outros transtornos mentais como desligamento emocional, abuso de substâncias, perda de concentração, distúrbios do sono, depressão e comportamento violento.

"A pior coisa, pior mesmo que o risco físico [de acidentes de trabalho] é o fardo emocional. Porcos no chão do abatedouro vêm e se aninham na gente como um cachorro. Dois minutos depois eu tive que matá-lo – batendo nele até a morte com um cano", relatou um trabalhador ao jornal Metro.

Foto: We Animals

4. Os salários são muito baixos

Um artigo da Bloomberg diz que, nos Estados Unidos, os trabalhadores de abatedouros recebem metade do que motoristas, frequentemente trabalhando em condições deploráveis como as descritas acima. Essa é a realidade de virtualmente todos os países.

Não é coincidência que toda a indústria da carne esteja tendo dificuldades para reter trabalhadores e que as taxas de rotatividade sejam tão altas. Na verdade, apenas pessoas muito desesperadas por um emprego aceitam trabalhar em abatedouros e frigoríficos: isso explica por que essas fábricas concentram tantos imigrantes e pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.

Foto: We Animals

5. Há muitos casos de trabalho escravo

Se dentro de abatedouros e frigoríficos as condições de trabalho são terríveis, o que dizer das fazendas?

No Brasil, um dos maiores processadores de carne do mundo, o trabalho escravo em fazendas de gado é de conhecimento geral e mais de 10 mil pessoas foram resgatadas apenas entre 2003 e 2010 de fazendas que fornecem para as maiores processadoras e vendedores de carne do mundo: supermercados como Walmart e redes de fast food como McDonald’s e Burger King.

A Organização Internacional do Trabalho estima que 62% de todos os casos de trabalho escravo no Brasil estejam relacionados diretamente apenas à produção de gado, para não falar dos casos envolvendo produção de suínos e soja (em grande parte destinada para a produção animal). Entre as violações aos direitos humanos, autoridades encontraram pessoas que simplesmente não eram pagas, não tinham acesso a tratamento médico, não tinham liberdade de ir e vir, tinham que beber a mesma água que os animais, eram mantidas em vínculo por débito com os ruralistas e ameaçadas com armas. Há até mesmo um caso em que um trabalhador foi torturado e marcado com ferro usado no gado. Leia mais sobre suas histórias nesse artigo da CNN.

Foto: We Animals

A indústria de frutos do mar tailandesa, a terceira maior exportadora do setor globalmente, vendendo para grandes distribuidores ao redor do mundo, recentemente se viu envolvida em "sistemáticas práticas ilegais e terríveis abusos aos direitos humanos", diz a Human Rights Watch.

“Trabalho forçado é rotina. Os trabalhadores que entrevistamos descrevem terem sido traficados para embarcações, presos em trabalhos que não conseguiam abandonar, abuso físico, falta de alimento e condições de trabalho terríveis. A pior coisa para eles era não serem pagos – o dano psicológico e indignidade era o mais difícil de aguentar”, relatou Brad Adams, diretor da Human Rights Watch na Asia, ao The Guardian.

5. Trabalhadores são expostos a patógenos

Em tempos de pandemia e de emergência de novas doenças provenientes de animais, também é importante notar que esses trabalhadores estão especialmente expostos a patógenos como vírus e bactérias, uma vez que estão em contato direto com fluídos e excrementos dos animais todos os dias. Quando novas doenças aparecem, trabalhadores estão na linha de frente da contaminação.

Foto: Andrew Skowron

7. Eles estão sendo forçados a trabalhar durante a pandemia

Em muitos países, abatedouros e frigoríficos são considerados uma atividade essencial e permanecem operando durante a crise de Covid-19. O resultado? Fábricas que empregam muitas pessoas estão se tornando ponto focal para a disseminação do virus. Na verdade, um frigorífico chamado Smithfield, o nono maior processador de porcos dos Estados Unidos, se tornou uma das maiores zonas de contaminação do Covid-19 de todo o país, com pelo menos 644 casos confirmados até o momento.

"A força de trabalho da Smithfield é composta em grande parte por imigrantes e refugiados de países como Myanmar, Etiópia, Nepal, Congo e El Salvador. São faladas 80 línguas diferentes no chão da fábrica. As horas de trabalho são longas, o trabalho é exaustivo e estar na linha de produção significa estar cercado de outros trabalhadores", relatou a BBC, que menciona que outras processadoras de carne, como a JBS e a Tyson Foods, também reportaram diversos casos de trabalhadores infectados e até mortos.

Essas fábricas dependem fortemente do trabalho de imigrantes — que frequentemente não falam a mesma língua, não têm acesso a acompanhamento médico, e têm medo de procurar ajuda e serem deportados —, o que faz com que a propagação do vírus seja uma bomba-relógio. O fato de as empresas escolherem não parar suas operações só torna ainda mais evidente que elas não ligam para a saúde e vida dos trabalhadores.

Trabalhadores de abatedouros e frigoríficos são uma população extremamente vulnerável, recebem alguns dos salários mais baixos do mercado para um trabalho extremamente penoso e estão expostas a patógenos e outros riscos. Uma indústria que não tem respeito por animais ou pelo meio ambiente dificilmente vai fazer qualquer esforço para poupar vidas humanas.

Se você não quer fazer parte disso, existe uma alternativa. Nossa alimentação pode ser um meio de apoiar pequenos produtores, a agricultura familiar, e um sistema alimentar mais justo e sustentável, que não prejudica nem animais, nem humanos. Por favor, considere uma alimentação sem carne, leite e ovos. Clique aqui para saber mais.