• Aline Baroni e Carolina Galvani

Bactérias superresistentes na pecuária industrial podem matar mais que coronavirus, alerta NGO

O coronavirus foi declarado, em uma conferência de imprensa realizada na tarde de ontem, uma emergência de saúde pública ela Organização Mundial da Saúde (OMS), e descrito como um "surto sem precedentes". Mas a produção e consumo animal podem estar por trás de novos casos de surtos de super doenças em um futuro próximo.

De acordo com a OMS, de todas as doenças humanas, 60% são originárias de animais. Atualmente, todos os anos, 700 mil pessoas morrem como resultado de infecções de bactérias resistentes a medicamentos, devido ao uso abusivo de drogas tanto na medicina humana quanto veterinária. Até 2050, a ONU estima que mais de 10 milhões de pessoas morrerão por ano devido à resistência a antibióticos.

Até o momento, 170 pessoas morreram por causa do coronavirus e mais de 8 mil foram infectadas, a maioria na China. Casos foram confirmados em 20 países, incluindo os Estados Unidos, Canadá, Austrália, França e Alemanha.

O vírus está se espalhando rapidamente, e novas evidências sugerem que o surto provavelmente começou com animais. No início da semana, cientistas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, uma organização governamental de saúde pública, confirmou que o novo coronavírus foi isolado de amostras obtidas no mercado de carne da cidade de Wuhan, indicando que ele advinha dos animais selvagens vendidos no local. Esse tipo de mercado é popular entre os consumidores chineses por vender diversos tipos de carne, desde as mais tradicionais, como de boi, porco e frango, até animais selvagens e vivos, como cobras, tartarugas, filhotes de lobos, porquinhos da Índia, ratos e muitos outros.

A ONG internacional Sinergia Animal usou a oportunidade para ressaltar que, ainda que campanhas contra o comércio de animais selvagens estejam sendo feitas e sejam importantes, há um problema relacionado com a produção animal industrial que está sendo ignorado tanto por consumidores como por autoridades. "A OMS alerta que super doenças originárias do uso irresponsável de antibióticos podem matar mais que câncer, e muito mais que surtos e epidemias como o coronavirus e influenza, em um futuro próximo", afirma a diretora presidente da organização, Carolina Galvani.

Três quartos dos antibióticos usados no mundo vão para a produção animal

Cerca de 75% dos antibióticos usados no mundo são destinados a animais criados para alimentação, e especialistas projetam que esse consumo vai aumentar 67% até 2030, e aproximadamente 100% no Brasil, Uruguai, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Essas substâncias são usadas amplamente na pecuária. Por exemplo, na América Latina, porcos e frangos são criados em fazendas industriais superlotadas, em condições sanitárias paupérrimas. "Milhões de animais estão sendo confinados durante suas vidas inteiras em fazendas, e muitos recebem antibióticos de forma contínua, mesmo sem estarem doentes, simplesmente para prevenir doenças ou aumentar sua produtividade. Esses animais se tornam resistentes a antibióticos administrados em doses pequenas durante o ciclo de produção, e então contaminam com super doenças a cadeia alimentar e os humanos. Centenas de milhares de pessoas estão morrendo todos os anos por causa da resistência a antibióticos, mais do que em qualquer epidemia, mas não existe um grande debate na sociedade e entre as autoridades sobre isso, explica Galvani.

Photo: We Animals Media

Photo: Andrew Skowron

Um estudo publicado no jornal 'Science' no último setembro revelou que zonas de resistência a antibióticos já são uma realidade. As principais se localizam no nordeste da Índia, nordeste da China e no delta do Rio Vermelho, no Vietnã; zonas emergentes podem ser encontradas no Quênia, Marrocos, Uruguai, sul do Brasil, centro da Índia e sul da China.

A pesquisa revelou que as áreas mais afetadas estão no Sul Global, onde, para assegurar a demanda de carne, a produção animal tem se intensificado. Isso pode levar a um cenário apocalíptico para a saúde pública, uma vez que esses locais contam com menos recursos para lidar com surtos e geralmente apresentam condições sanitárias mais precárias.

Desde 2006, a União Europeia baniu o uso de antibióticos para promover o crescimento mais rápido dos animais, mas não existe medida similar no Brasil. "Nós deveríamos nos informar melhor sobre o que estamos comendo e os riscos que a indústria de produção animal representam para o planeta. Uma das melhores ações para prevenir o desenvolvimento de condições como essa é adotar uma dieta responsável e saudável", completa. Considere o veganismo. Clique aqui para saber como começar.