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Animais não são carga: por que o Brasil precisa acabar com a exportação de animais vivos

  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Milhares de animais são colocados em navios, submetidos a viagens longas, calor, estresse, ferimentos, doenças e contato permanente com fezes e urina para chegar a um destino onde serão abatidos. O Brasil já poderia ter deixado essa prática para trás. O governo conhece os riscos. O Congresso precisa decidir se vai enfrentá-los.


foto: We Animals


Há coisas que parecem normais apenas porque foram repetidas durante tempo demais.


Mas exportar milhares de animais vivos em navios para que sejam abatidos do outro lado do oceano deveria nos fazer parar e perguntar: por que estamos fazendo isso?


Não estamos falando de carga. Estamos falando de seres sencientes.


Animais que sentem dor, medo, fome, sede, calor e estresse são capturados, transportados por estradas, concentrados em instalações de pré-embarque, colocados em navios e submetidos a viagens que podem durar dias ou semanas.


E tudo isso para chegar ao destino final e morrer em um abatedouro.


O próprio governo reconhece que o transporte causa dor, estresse e risco


Não precisamos recorrer apenas aos relatos de organizações de proteção animal para demonstrar os problemas.


O próprio Ministério da Agricultura e Pecuária reconhece que o transporte de animais vivos exige medidas para evitar a dor, reduzir o estresse, diminuir perdas, reduzir riscos de transmissão de doenças e proteger a saúde única.


Se o próprio sistema oficial brasileiro exige monitoramento de contusões, quedas, fraturas, prostração e mortalidade durante a exportação de animais vivos, isso deveria ser suficiente para desmontar a ideia de que estamos falando simplesmente de uma operação logística.


Portanto, se é necessário criar protocolos específicos para lidar com fraturas, animais prostrados e mortes, existe sofrimento.


19 mil bovinos. Um navio. Animais mortos, doentes e feridos.


Existe uma diferença entre discutir sofrimento animal na teoria e olhar para o que acontece na prática.


Em 2024, um navio transportando cerca de 19 mil bovinos provenientes do Brasil atracou na Cidade do Cabo, na África do Sul, a caminho do Iraque.


O forte odor de esgoto vindo da embarcação levou autoridades locais a investigar as condições a bordo.


Uma equipe veterinária enviada por uma organização de proteção animal sul-africana encontrou animais mortos, doentes e feridos. Oito bovinos precisaram ser eutanasiados.


Também foram relatados acúmulo de fezes e urina e níveis preocupantes de amônia dentro da embarcação.


foto: Reuters


Estamos falando de uma atividade em que milhares de animais são confinados simultaneamente durante viagens marítimas. E quando alguma coisa dá errado, não existe um campo aberto para onde os animais possam ser retirados.


Eles estão no meio do oceano.


O sofrimento começa muito antes do embarque


Também é um erro imaginar que o problema começa quando o animal entra no navio. A cadeia é muito maior.


Em cada uma das etapas existem os riscos de queda, contusão, estresse, desidratação, doença, lesão e mortalidade.


Um estudo sobre a rede brasileira de exportação de gado vivo analisou 27.517 Guias de Trânsito Animal e 579 certificados veterinários internacionais, identificando municípios de origem, corredores terrestres, portos e destinos. A maior parte dos animais analisados tinha como finalidade o abate imediato no país importador.


Trata-se de uma cadeia internacional de movimentação de seres vivos. E, quanto mais etapas existem, mais oportunidades para que algo dê errado.


E quem paga esse preço é o animal.


O problema também é sanitário


Existe outro aspecto da exportação de animais vivos que costuma ficar escondido atrás da discussão econômica: as doenças.


Quando exportamos carne, exportamos um produto. Quando exportamos um animal vivo, movimentamos também um ser biologicamente ativo, que pode adoecer, eliminar agentes infecciosos e entrar em contato com outros animais durante a cadeia logística.


A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) reconhece que a movimentação de animais infectados dentro e entre países está entre os fatores associados à disseminação de doenças transfronteiriças de alto impacto.


Isso não significa que todo animal exportado esteja doente. Significa algo mais básico: quanto mais animais vivos atravessam fronteiras, mais complexa se torna a gestão do risco epidemiológico.


E doenças não respeitam contratos comerciais.


Há também uma carga invisível dentro do navio. Milhares de animais confinados produzem milhares de litros de urina e grandes volumes de fezes.


Isso significa resíduos sólidos, efluentes, água contaminada e necessidade de controle de pragas. Mais uma vez, não é uma hipótese.


Ou seja, toda uma cadeia de resíduos biológicos é transportada junto com esse animal.


“Mas existem regras de bem-estar”. Sim, e esse é justamente um dos problemas.


A existência de regras não significa que a atividade seja compatível com o bem-estar animal, mas que o Estado reconhece que existem riscos suficientemente relevantes para precisar regulamentá-los.


O MAPA afirma que os animais devem ser protegidos contra dor e sofrimento desnecessários durante o transporte.


Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: uma viagem internacional de um animal destinado ao abate é necessária?


Se não é necessária, quanto sofrimento adicional estamos aceitando em nome de uma operação comercial?


Essa pergunta não pode ficar escondida atrás de certificados, formulários e protocolos.

Uma atividade não se torna ética apenas porque foi regulamentada.


O Brasil não precisa exportar o animal para exportar proteína


O Brasil possui uma das maiores indústrias de proteína animal do mundo. O país possui frigoríficos, infraestrutura, tecnologia e acesso a mercados internacionais.


A exportação de animais vivos não é a única maneira de participar do comércio internacional de proteína. E isso muda o debate.


Não estamos discutindo se o Brasil deve parar de exportar. Estamos discutindo se o animal precisa ser submetido a uma viagem internacional para que o Brasil continue exportando proteína animal.


A resposta parece cada vez mais difícil de justificar.


Outros países já decidiram que não precisam fazer isso


O Brasil não seria pioneiro ao abandonar essa prática.


Em 2024, o Reino Unido aprovou uma lei que proibiu a exportação de bovinos, ovinos, suínos e caprinos vivos para abate e engorda a partir da Grã-Bretanha.


O governo britânico justificou a medida pelos impactos de viagens longas, incluindo estresse, exaustão e lesões.


A decisão não acabou com a produção pecuária britânica, tampouco com o comércio internacional de proteína. Acabou apenas com uma modalidade específica de transporte que submetia animais a longas viagens para serem abatidos ou engordados no exterior.


Reino Unido: proibiu a exportação de animais vivos para abate e engorda em 2024.


Nova Zelândia: mantém restrições à exportação marítima e à exportação de animais vivos para abate.


Austrália: aprovou o fim da exportação marítima de ovinos, com período de transição até 2028.


Se outros países conseguem, por que o Brasil não?


Essa pergunta é especialmente importante porque o Brasil gosta de se apresentar como uma potência agropecuária moderna. Temos tecnologia, capacidade logística e uma das maiores cadeias de proteína animal do planeta.


Então por que ainda precisamos colocar milhares de animais em navios para atravessar oceanos?


A resposta não parece estar na falta de alternativas, mas na manutenção de um mercado. E é aqui que a política entra.


Não estamos pedindo que o governo descubra o problema. Estamos pedindo que ele aja diante de um problema que já conhece. Essa distinção é fundamental.


O Congresso precisa decidir


O PL 4.795/2026, apresentado pela deputada Gleisi Hoffmann, propõe proibir a exportação de animais vivos destinados ao abate ou à engorda para posterior abate no exterior.


O PL 2.627/2025, da deputada Duda Salabert, propõe uma redução progressiva dessa atividade até sua eliminação, estabelecendo um período de transição.


São propostas diferentes, mas partem de uma mesma constatação: o modelo atual precisa ser questionado. E o debate não pode ser enterrado pela pressão de interesses econômicos.


Parlamentares têm o direito — e o dever — de discutir mudanças na legislação.


Organizações da sociedade civil têm o direito de cobrar essas mudanças.


E a população tem o direito de saber como cada representante pretende votar.


O Brasil precisa escolher de que lado da história quer ficar


Enquanto o Brasil discute como aperfeiçoar protocolos para transportar animais vivos, outros países estão discutindo como abandonar essa prática.


O Brasil pode continuar tratando essa atividade como inevitável ou pode começar uma transição, investindo em processamento e fortalecendo cadeias nacionais.


O que está em jogo não é apenas um projeto de lei, mas uma escolha sobre que tipo de país queremos ser.


O sofrimento não é inevitável. A escolha é.


Não precisamos esperar mais um navio chegar ao destino com animais mortos ou um surto sanitário para reconhecer que movimentar animais vivos entre países envolve riscos.


O Brasil já tem conhecimento, estrutura e alternativas para começar essa mudança.


O que falta é vontade política.


Porque, quando existe uma alternativa que evita sofrimento desnecessário, continuar escolhendo a opção mais cruel deixa de ser inevitabilidade.


Passa a ser uma decisão.

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