McCain reporta compromisso global cumprido, mas adia meta brasileira para 2030; projeção em São Paulo cobra coerência da multinacional
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Intervenção da Sinergia Animal utilizou projeção inspirada na Copa do Mundo para questionar diferença entre o compromisso global da empresa e o cronograma adotado para a Forno de Minas
Uma fachada da região da Consolação, em São Paulo, transformou-se, na noite desta quarta-feira (30), em um grande painel de questionamento à política de sustentabilidade da McCain Foods. Em uma intervenção urbana promovida pela organização internacional Sinergia Animal, projeções inspiradas na estética da Copa do Mundo chamaram a atenção de quem passava pelo local para uma pergunta central: por que uma empresa que afirma ter alcançado 100% de abastecimento de ovos livres de gaiolas globalmente estendeu até 2030 o mesmo compromisso para sua operação brasileira?
A ação faz referência ao compromisso assumido pela Forno de Minas em 2018, quando a empresa anunciou que eliminaria o uso de ovos provenientes de galinhas confinadas em gaiolas até 2025. Neste ano, a meta foi oficialmente prorrogada para 2030.
Segundo a Sinergia Animal, o caso extrapola o debate sobre bem-estar animal e levanta questões relacionadas à credibilidade de compromissos ESG, transparência e responsabilidade corporativa.
"A sustentabilidade precisa ser consistente. Quando uma empresa comunica um compromisso como parte de sua estratégia global, consumidores e investidores esperam que ele seja aplicado com o mesmo nível de prioridade em todos os mercados", afirma Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil.
A discussão ganha relevância porque, em seu Relatório Global de Sustentabilidade, a McCain Foods informa ter alcançado 100% de abastecimento de ovos livres de gaiolas em suas operações globais até 2025. No mesmo documento, porém, a empresa informa que a Forno de Minas seguirá um cronograma distinto, com prazo estendido até 2030.
A intervenção utilizou recursos visuais inspirados no universo do futebol para aproximar um tema técnico do grande público. Cartão vermelho, torcida, bola no gol e imagens de galinhas confinadas compuseram a narrativa projetada na fachada do edifício.
Ao longo da noite, ativistas distribuíram materiais informativos, conversaram com o público e convidaram os participantes a acessar a plataforma da campanha para solicitar o cumprimento do compromisso.
A iniciativa também dialoga com um cenário internacional de crescente apuração da implementação de compromissos ambientais, sociais e de governança. Segundo a Open Wing Alliance, 92% dos compromissos cage-free com prazo até 2024 já foram implementados globalmente e 90% dos compromissos da América Latina foram concluídos dentro do prazo previsto. O levantamento aponta que a adoção desse modelo já deixou de ser uma exceção e se tornou uma prática consolidada entre empresas que assumiram compromissos públicos.
Para a Sinergia Animal, a campanha busca ampliar um debate que vem ganhando espaço entre consumidores, investidores e especialistas em sustentabilidade.
"O ponto central não é apenas quando uma meta será cumprida. É garantir que os compromissos públicos mantenham o mesmo valor independentemente do país onde serão implementados", conclui Cristina.
Sustentabilidade não pode depender da geografia
A discussão ganha relevância pelo porte da empresa. A McCain Foods é uma das maiores fabricantes de alimentos congelados do mundo, com operações em mais de 160 países, 49 unidades industriais distribuídas por 15 países, cerca de 22 mil colaboradores e uma rede de aproximadamente 4.400 produtores parceiros. Em seu mais recente relatório de sustentabilidade, a companhia apresenta a sustentabilidade como um dos pilares centrais de sua estratégia global de negócios, ao lado de metas relacionadas à agricultura regenerativa, redução de emissões de carbono, uso de energia renovável e desenvolvimento das comunidades onde atua.
No relatório, a McCain destaca como uma de suas principais conquistas o cumprimento da meta global de abastecimento com 100% de ovos livres de gaiolas até 2025. O mesmo documento, porém, informa que a Forno de Minas seguirá um cronograma próprio, com conclusão prevista apenas para 2030. Para a Sinergia Animal, essa diferença de tratamento entre a operação global e a subsidiária brasileira coloca em evidência um debate cada vez mais relevante para consumidores, investidores e especialistas em governança: a consistência dos compromissos públicos de sustentabilidade.
A discussão ocorre em um momento em que empresas de diferentes setores enfrentam um nível inédito de acompanhamento sobre a implementação de suas metas ESG. Nos últimos anos, compromissos relacionados ao clima, à biodiversidade, aos direitos humanos e ao bem-estar animal deixaram de ser avaliados apenas pelo seu anúncio e passaram a ser medidos pela capacidade das empresas de demonstrar resultados concretos e transparentes.
Para a Sinergia Animal, a questão central não é apenas o adiamento de um cronograma, mas o precedente que ele estabelece. Em um cenário em que compromissos ESG são cada vez mais utilizados como indicadores de desempenho corporativo, a existência de agendas distintas para diferentes mercados levanta questionamentos sobre a uniformidade dos padrões adotados por empresas globais e sobre a confiança que consumidores e investidores podem depositar nessas metas.
Ao levar esse debate para o espaço público por meio de uma intervenção urbana, a Sinergia Animal pretende ampliar uma discussão que ultrapassa o caso da marca Forno de Minas. A campanha questiona até que ponto os compromissos globais de sustentabilidade podem ser considerados verdadeiramente globais quando sua implementação ocorre em ritmos distintos entre países. Para a organização, a credibilidade corporativa depende não apenas da definição de metas ambiciosas, mas da aplicação consistente desses compromissos em todos os mercados onde uma empresa atua.




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