Brasil x Noruega: fora dos gramados, existe outra disputa que o Brasil ainda precisa vencer
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Enquanto a Seleção Brasileira busca uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo, a Noruega já é referência mundial em legislação para proteger animais criados para produção de alimentos.

Brasil e Noruega entram em campo neste domingo pelas oitavas de final da Copa do Mundo. A expectativa é de um confronto equilibrado, com milhões de brasileiros torcendo pela classificação da Seleção.
Mas existe outra disputa entre os dois países que acontece longe dos gramados — e, nessa, a Noruega já está vários passos à frente.
O Animal Protection Index (API), considerado uma das principais referências internacionais na avaliação das políticas públicas de proteção animal, classifica os países em faixas que vão de A (melhor desempenho) a G (pior desempenho). Na edição mais recente, a Noruega recebeu nota B, figurando entre os países com legislação mais avançada para proteger animais, enquanto o Brasil recebeu nota D, o que reflete a permanência de práticas de confinamento intensivo e a necessidade de avanços na proteção de animais criados para a produção de alimentos.
"Quando pensamos em Brasil e Noruega, a primeira imagem que vem à cabeça é um jogo de futebol. Mas existe outro placar que merece atenção: o da proteção aos animais criados para produção de alimentos. Países como a Noruega demonstram que é possível produzir com padrões mais elevados de proteção animal sem abrir mão da competitividade", afirma Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil.
Enquanto o Brasil ainda mantém porcas em gaiolas, a Noruega exige criação em grupo
Um dos exemplos mais claros dessa diferença está na produção de carne suína.
No Brasil, milhões de porcas passam semanas confinadas em gaiolas individuais tão estreitas que impedem até mesmo que os animais se virem livremente. Embora diversas empresas tenham anunciado compromissos para abandonar esse sistema, parte desses cronogramas foi adiada ou ainda não saiu do papel.
Na Noruega, a realidade é diferente. A legislação exige que porcas gestantes sejam criadas em grupos, restringindo o confinamento permanente em gaiolas. A medida busca garantir liberdade de movimento e permitir comportamentos naturais durante a gestação, reduzindo problemas físicos e comportamentais associados ao confinamento extremo.
A Noruega também decidiu abandonar frangos de crescimento ultrarrápido
Outro exemplo vem da avicultura. A indústria norueguesa anunciou que eliminará, até 2027, as linhagens de frangos de crescimento ultrarrápido, animais selecionados geneticamente para atingir o peso de abate em poucas semanas, condição associada a problemas locomotores, cardiovasculares e outras complicações de saúde.
Enquanto isso, esse modelo continua predominante no Brasil.
A decisão coloca a Noruega entre os países que vêm revisando seus sistemas produtivos para reduzir o sofrimento dos animais e acompanhar uma demanda crescente de consumidores, investidores e varejistas por práticas mais responsáveis.
O jogo que continua depois do apito final
Nas últimas décadas, a proteção aos animais deixou de ser uma pauta restrita às organizações da sociedade civil. Hoje, ela faz parte das discussões sobre sustentabilidade, segurança alimentar, transparência e responsabilidade corporativa.
Diversos países vêm atualizando suas legislações para restringir práticas de confinamento extremo e incentivar sistemas de criação mais compatíveis com as necessidades dos animais.
No Brasil, esse movimento também começou. Empresas anunciaram compromissos para eliminar gaiolas para galinhas poedeiras e porcas reprodutoras, mas muitos desses compromissos seguem sem implementação ou tiveram seus prazos prorrogados.
"O Brasil é uma potência mundial na produção de alimentos. Justamente por isso, também pode ser uma referência em sistemas de produção que respeitem mais os animais. Os exemplos internacionais mostram que essa transição não só é possível como já está acontecendo", afirma Cristina.
No domingo, a torcida brasileira espera comemorar uma vitória dentro de campo.
Quando o juiz apitar o fim da partida, permanecerá um desafio ainda maior: fazer com que o Brasil avance também na forma como trata milhões de animais criados para produção de alimentos.
Porque esse é um jogo que continua muito além dos 90 minutos.



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