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Panettone Bauducco: a receita de família com sofrimento extra

27 de out.
5 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Desde 2018, a empresa promete eliminar ovos de galinhas criadas em gaiolas de sua cadeia de fornecimento. O prazo terminou em 2025, mas ainda faltam transparência, resultados públicos e um plano claro para concluir a transição.


Ativista  da Sinergia Animal na porta da loja da Bauducco, em São Paulo

O panetone é um dos símbolos das celebrações de fim de ano no Brasil. Está presente nas mesas das famílias, nos presentes trocados entre amigos e nas campanhas publicitárias que associam a marca Bauducco a afeto, tradição e união. Mas existe uma história que não costuma aparecer nas embalagens: a das galinhas utilizadas na produção dos ovos que podem integrar esses produtos.


Em 2018, o Grupo Pandurata, responsável pelas marcas Bauducco, Visconti e Tommy, anunciou um compromisso público: utilizar exclusivamente ovos provenientes de granjas certificadas com produção no sistema cage-free, ou seja, sem manter as galinhas poedeiras em gaiolas, até 2025. A promessa foi divulgada como parte de uma iniciativa de melhoria das práticas de bem-estar animal.


Sete anos deveriam ter sido suficientes para planejar e implementar uma transição dessa dimensão. No entanto, o prazo venceu e a empresa não apresentou evidências públicas suficientes de que tenha concluído a mudança.


Em 2021, a Bauducco reportou apenas 2% de progresso em relação à meta. Desde então, a falta de atualizações públicas suficientes impede que consumidores acompanhem de forma clara o avanço da transição. E a posição atualmente publicada pela própria empresa torna a situação ainda mais preocupante: a Pandurata afirma que o uso de ovos livres de gaiolas em seu portfólio continua em avaliação e que não há definição de prazo ou resultado para essa avaliação.


A pergunta é inevitável: o que aconteceu com a promessa da Bauducco?


O que significa uma vida inteira dentro de uma gaiola?


Para entender por que esse compromisso importa, precisamos olhar para os animais que estão no centro dessa discussão.


Na produção convencional de ovos, galinhas podem passar grande parte da vida confinadas em gaiolas que restringem movimentos básicos. Nessas condições, elas não conseguem expressar plenamente comportamentos naturais como caminhar, ciscar, explorar o ambiente e abrir as asas sem impedimentos.


Não se trata de um detalhe técnico da produção de alimentos. Trata-se de uma restrição concreta à vida de animais sencientes, capazes de experimentar dor, medo, estresse e frustração.



Sistemas livres de gaiolas não eliminam todos os desafios de bem-estar animal e também precisam de manejo e condições adequadas. Ainda assim, representam uma mudança importante em relação ao confinamento em gaiolas, pois permitem maior liberdade de movimento e a expressão de comportamentos naturais.


Por isso, compromissos cage-free têm relevância real. Quando uma empresa elimina ovos provenientes de sistemas com gaiolas de sua cadeia de fornecimento, pode contribuir para melhorar as condições de vida de milhares de animais.


E quanto maior o volume de ingredientes utilizados por uma empresa, maior pode ser o impacto potencial dessa transformação.


De 2% a uma promessa sem prazo: o que a Bauducco precisa explicar


Em 2026, a posição pública da empresa não apresenta uma data para concluir a transição. A justificativa divulgada menciona desafios de mercado, logística, fornecimento e custos, além da necessidade de ampliar a disponibilidade de ovos produzidos sem gaiolas no Brasil.


A transição de uma cadeia de fornecimento complexa exige planejamento, articulação com fornecedores e investimentos. Mas não justificam a ausência de um cronograma transparente, sobretudo depois de anos de preparação previstos no compromisso original.


Se existem obstáculos, quais são eles? Quais etapas já foram cumpridas? Qual é o percentual atual de ovos provenientes de sistemas livres de gaiolas? Quais fornecedores estão sendo preparados para a mudança? E, principalmente, quando a empresa pretende concluir a transição?


Sem respostas verificáveis, consumidores não conseguem distinguir um processo de implementação em andamento de uma promessa que perdeu prioridade.


Outras empresas avançaram. Por que a Bauducco não apresenta um plano?


A Bauducco não está diante de um desafio sem precedentes. Empresas de diferentes segmentos da indústria alimentícia já demonstraram que é possível concluir a transição para ovos livres de gaiolas e comunicar seus resultados publicamente.


A Nissin Foods do Brasil, por exemplo, anunciou que concluiu a transição no primeiro semestre de 2024, antecipando a meta original. A BRF declara ter cumprido integralmente esse compromisso no Brasil desde 2020. A Aurora Coop também informa ter concluído a transição em 2020, cinco anos antes do prazo inicialmente previsto.


A Barilla oferece outra referência: seu relatório global de sustentabilidade de 2025 registra que 100% dos ovos e produtos derivados adquiridos pela companhia naquele ano estavam em conformidade com seu padrão de produção livre de gaiolas.


A pergunta que fica para a liderança da Bauducco é simples: se outras empresas conseguiram estruturar processos de transição e divulgar resultados, por que a empresa ainda não apresenta um plano atualizado, com metas, etapas e datas verificáveis?


Uma promessa corporativa também é uma responsabilidade com os consumidores


Quando uma empresa comunica publicamente uma política de bem-estar animal, ela cria uma expectativa sobre a origem dos ingredientes que utiliza e sobre as práticas que pretende adotar.


Essa expectativa importa porque os consumidores não têm acesso direto às granjas, aos contratos com fornecedores ou aos sistemas de produção utilizados em cada ingrediente. Dependem, portanto, de informações confiáveis para avaliar as escolhas das marcas.


A transparência não deveria ser tratada como um favor concedido ao público. É parte da responsabilidade de uma empresa que escolhe assumir compromissos socioambientais.


É justamente para evitar que compromissos se percam no discurso que organizações de proteção animal acompanham as políticas corporativas, comparam resultados e mobilizam consumidores.


Promessas de bem-estar animal precisam ser mensuráveis. Precisam ter responsáveis, etapas, prazos e resultados públicos. Caso contrário, tornam-se declarações difíceis de verificar e de cobrar.


A família Bauducco precisa escolher qual legado quer construir


A Bauducco construiu sua identidade em torno da tradição familiar e de produtos associados a momentos de celebração. Essa imagem também vem acompanhada de responsabilidade: o tamanho e a influência de uma marca ampliam o alcance de suas decisões sobre toda a cadeia de fornecimento.


Não estamos pedindo que a empresa abandone sua tradição, mas a receita de um panetone não deveria incluir sofrimento evitável. E uma promessa de bem-estar animal não pode terminar em silêncio.


A liderança da companhia tem a oportunidade de corrigir a rota, publicar resultados atualizados e apresentar um plano que permita à sociedade acompanhar cada etapa da transição.


A campanha está no ar. E a cobrança também.



A Sinergia Animal lançou uma campanha para pressionar a Bauducco a cumprir o compromisso assumido em 2018. O vídeo da mobilização já ultrapassou 950 mil visualizações no Instagram, levando a discussão a um público amplo e estimulando consumidores a cobrar respostas da empresa.


A mobilização também chegou às ruas, com a ação dos ativistas em frente a uma loja da Bauducco, em São Paulo.


A reivindicação é objetiva. A Bauducco precisa:

  • Divulgar o percentual atualizado de ovos provenientes de sistemas livres de gaiolas utilizados em sua cadeia de fornecimento.

  • Explicar o que foi feito desde o último reporte de progresso.

  • Apresentar um plano público de transição, com metas intermediárias e datas definidas.

  • Estabelecer um prazo verificável para concluir o compromisso anunciado em 2018.

  • Publicar atualizações periódicas que permitam acompanhar a implementação.


Consumidores, organizações e empresas têm um papel importante na construção de cadeias de fornecimento que respeitem melhor os animais.


A Bauducco teve anos para planejar a mudança. Agora, precisa demonstrar que está disposta a realizá-la.


Faça parte da cobrança

Acesse a página da campanha, assista ao vídeo e cobre um posicionamento da Bauducco. Compartilhe a mobilização e peça à empresa que publique um plano concreto para cumprir sua promessa.


Porque a tradição não pode ser desculpa para manter práticas que causam sofrimento. E compromisso público precisa significar mudança real.




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