Newcastle: 6 mil perus ameaçados de abate sanitário, exportações suspensas e uma pergunta que ninguém faz
O surto em Santa Catarina mobilizou governos e mercados internacionais. Mas, enquanto a indústria contabiliza prejuízos, milhares de animais enfrentam as consequências de uma crise que expõe os limites da responsabilidade nas cadeias de produção.

Um único foco de doença de Newcastle, identificado em uma granja comercial de perus em Nova Itaberaba, Santa Catarina, foi suficiente para provocar restrições internacionais à carne de aves brasileira. O México suspendeu importações de produtos avícolas de todo o país, enquanto China e Chile adotaram restrições relacionadas a Santa Catarina.
O mercado reagiu rapidamente. Governos anunciaram medidas, exportadores passaram a avaliar prejuízos e analistas financeiros começaram a calcular os riscos para uma das maiores indústrias de proteína animal do mundo.
Mas há um número que deveria provocar tanta preocupação quanto as perdas comerciais: aproximadamente 6 mil perus estão na propriedade afetada, onde o governo anunciou a depopulação das aves como parte das medidas de controle sanitário.
Para esses animais, a crise não é uma questão de balanço financeiro. É uma questão de vida ou morte.
Uma doença capaz de matar até 100% das aves infectadas
A doença de Newcastle é uma infecção viral altamente contagiosa que atinge aves domésticas e silvestres. Segundo a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), suas formas mais graves podem apresentar taxas de mortalidade de até 100%.
Os sintomas estão longe de ser leves: dificuldade respiratória, tremores, paralisia das asas e pernas, torção do pescoço, espasmos e diarreia. Dependendo da variante viral, a doença pode evoluir rapidamente e provocar a morte de grande parte dos animais afetados.
Em Santa Catarina, o Ministério da Agricultura confirmou o foco em 18 de outubro, após investigação epidemiológica e análises laboratoriais. A propriedade foi interditada, a movimentação de aves foi suspensa e aproximadamente 133 estabelecimentos da região passaram a integrar o planejamento de monitoramento sanitário.
O governo informou que os perus da propriedade não foram destinados ao consumo e que as medidas previstas incluem a depopulação das aves, seguida de limpeza e desinfecção das instalações.
É preciso distinguir duas situações: morrer em decorrência da doença e ser morto como medida de controle sanitário. O número de animais existentes na granja não significa que todos tenham sido infectados. Ainda assim, protocolos de erradicação podem exigir a morte de aves expostas ao vírus, mesmo quando não apresentam sintomas.
A contenção de uma doença altamente contagiosa é necessária. Mas isso não elimina a obrigação de reduzir o sofrimento dos animais envolvidos.
O que a experiência internacional revela
O Brasil não é o primeiro país a enfrentar esse dilema. Em setembro de 2022, a Noruega identificou um foco de Newcastle em uma propriedade com 7.300 galinhas poedeiras. Todas as aves do estabelecimento foram abatidas como parte das medidas sanitárias.
Poucos dias depois, outras 13.600 aves criadas para produção de carne também foram submetidas ao abate preventivo em uma propriedade localizada na zona de proteção, por suspeita da doença e razões de bem-estar animal.
Somados, os procedimentos envolveram aproximadamente 20.900 aves em duas propriedades.
O episódio, documentado pelas autoridades norueguesas e apresentado à Comissão Europeia, demonstra como a resposta a uma emergência sanitária pode alcançar animais muito além daqueles com diagnóstico confirmado.
Se a indústria consegue rastrear toneladas de carne, contratos comerciais e destinos de exportação, também precisa ser capaz de prestar contas sobre o destino dos animais sob sua responsabilidade.
O prejuízo tem dono. E a responsabilidade pelos animais?
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a propriedade onde o foco foi identificado integra a cadeia de fornecimento da MBRF, uma das maiores companhias de alimentos do país.
A informação coloca uma questão importante para o setor: até onde vai a responsabilidade das grandes empresas sobre as condições sanitárias e o bem-estar dos animais criados por seus fornecedores?
O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango. Por isso, uma emergência sanitária localizada pode desencadear consequências comerciais que ultrapassam fronteiras.
Segundo análise publicada pela Reuters em 20 de outubro, instituições financeiras avaliam que o impacto econômico do foco de Newcastle poderá ser limitado caso a doença seja rapidamente contida. A China, responsável por aproximadamente 10% das exportações brasileiras de carne de frango, aparece entre as principais preocupações comerciais.
O contraste é revelador: enquanto especialistas calculam o tempo necessário para recuperar mercados, os procedimentos que determinarão o destino de milhares de aves recebem muito menos atenção.
Essa diferença de tratamento reflete uma questão estrutural. Na indústria alimentícia, animais frequentemente aparecem nos relatórios como indicadores de produtividade, capacidade instalada, mortalidade ou eficiência operacional.
Mas animais não são apenas unidades de produção. São seres capazes de sentir dor, medo e sofrimento.
Prevenir doenças também é uma obrigação com os animais
A Newcastle pode ser transmitida pelo contato direto entre aves e por materiais contaminados, incluindo equipamentos, água, alimentos, veículos e roupas.
A Comissão Europeia destaca a importância de medidas rigorosas de biosseguridade, higiene, vigilância e prevenção do contato com aves potencialmente infectadas. A vacinação também integra estratégias de controle em diferentes países.
Essas medidas não substituem políticas de bem-estar animal. Elas precisam funcionar em conjunto.
O caso de Santa Catarina reforça a necessidade de avaliar continuamente as condições de alojamento, a saúde dos animais, a movimentação entre estabelecimentos e a capacidade de identificar e responder rapidamente a doenças.
A Sinergia Animal defende que a prevenção seja tratada como obrigação permanente, e não apenas como uma resposta emergencial quando exportações estão ameaçadas.
Para isso, consideramos essenciais:
Transparência sobre o abate sanitário: divulgação do número de animais afetados, métodos utilizados e medidas adotadas para minimizar o sofrimento.
Responsabilidade das empresas: acompanhamento verificável dos protocolos sanitários e das condições de bem-estar nas propriedades fornecedoras.
Prevenção contínua: fiscalização, vigilância epidemiológica, biosseguridade e políticas de saúde animal integradas.
Prestação de contas: divulgação de indicadores de saúde, mortalidade e bem-estar animal, inclusive durante emergências sanitárias.
Não basta proteger o mercado. É preciso proteger os animais.
Não podemos aceitar que a eficiência dessa resposta seja medida exclusivamente pela velocidade de reabertura dos mercados internacionais.
A indústria sabe calcular o custo de uma exportação interrompida. Os governos sabem identificar os mercados afetados. As empresas sabem quanto vale cada tonelada de carne comercializada. O que ainda precisamos exigir é que o sofrimento dos animais também seja reconhecido, documentado e levado a sério.
Porque uma cadeia produtiva que presta contas sobre cada tonelada exportada, mas não oferece transparência suficiente sobre o destino dos animais que explora, ainda tem muito a avançar em responsabilidade.
E, para os aproximadamente 6 mil perus envolvidos nessa emergência sanitária, essa discussão não pode esperar pela próxima crise.




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